II. A visão do amor
Há alguns anos atrás um ancião que vivia isolado num monte foi procurado por um rapaz de uma aldeia próxima que buscava o sentido do amor e a razão por que não conseguia corresponder aos sentimentos de quem lhe expressava o seu afecto.
Era um jovem belo, de cabelos louros e olhos cintilantes – que reflectiam em tons de verde a paisagem circundante – bem vestido e bem falante e de caminhar seguro.
- Chega-te ao lume e aquece-te um pouco – disse-lhe o anfitrião.
- Estamos quase na Primavera…
- Em breve tudo estará florido e o gelo das montanhas há-de de correr em pequenos riachos e quedas de água. Mas não é para falar desta alquimia que me procuras…
- Tenho um problema. Estou num beco sem saída. Pode ajudar-me?
- Sou um simples eremita, apenas posso ajudar-te a encontrar o que está dentro de ti.
- Seja. Tenho azar nos amores e por vezes sinto que vou ficar sozinho e envelhecer sem ninguém ao meu lado. Essa imagem persegue-me quase diariamente e faz-me muito infeliz. Nunca soube o que era ser amado.
- Não tens o amor de ninguém?
- Tenho, mas não consigo recebê-lo…
- Porquê?
- Porque ele tem coisas que não me atraem: o cabelo não é louro como o meu, é demasiado alto, a voz não é melodiosa como a minha e as feições não são como eu sempre sonhei. Além disso é um pouco mais velho do que eu.
- É só isso que sabes dele?
- Não. Sei que é uma pessoa íntegra, com valores e com muitas coisas parecidas comigo. Estimula a minha mente, também.
- E ele conhece-te?
- Sim, ele sabe muito de mim, por vezes parece que sabe até mais do que eu, como se isso fosse possível.
- E ainda assim, conhecendo-te e conhecendo o teu destino, te oferece o amor dele?
- Sim. Porquê? Eu não sou má pessoa.
- Se não te importas chega-me aquelas duas vasilhas que estão ali encostadas à parede e enche-as de água.
O rapaz acatou o pedido do ancião e regressou com duas vasilhas baixas de barro, que encheu cuidadosamente com uma água cristalina retirada de um poço adjacente à velha casa.
- E agora que faço? – perguntou.
- Quero que penses na pessoa mais bonita que alguma vez conheceste e desejaste e olhes para a vasilha da esquerda. Vê-la-ás reflectida na água, tal como ela é.
- Não pode ser! – exclamou o rapaz. Este não é o Jaime! Vejo um homem feio, sem cabelo, triste, encostado à parede de uma velha casa. Está vivo, mas parece que morreu… Não quero ver mais!
- Agora pensa nessa pessoa cujo amor rejeitas e olha para a vasilha da direita.
- Não pode ser! – exclamou ainda com mais veemência o jovem. Este não é o Paulo. É um homem charmoso, sorri, está rodeado de amigos e vive numa quinta onde tudo parece estar em harmonia.
- Ambos são reais. O primeiro foi perdendo as belas feições de jovem enquanto se desdobrava em relações atrás de relações. Em cada uma deixou um fio de cabelo e ganhou uma ruga a mais e no fim de tudo estava mais sozinho e mais vazio porque nunca encontrou quem amasse mais do que o seu lado físico. Agora vive eternamente num passado que já não volta e por isso o vês encostado à parede… O segundo seguiu a sua vida e empenhou-se em crescer para que pudesse ter algo a partilhar com alguém já que o seu cabelo, a face, os olhos e a voz eram uma máscara que impediam os outros de o ver como era. Um dia apareceu alguém que o viu com o coração e ele pôde finalmente ser devidamente apreciado. Por isso o viste feliz e em harmonia.
- Mas eu não quero ter o destino do primeiro!
- Não tens de ter. Em verdade te direi que estás mais perto do segundo.
- Mas eu não sinto nada pelo Paulo…
- Porque o vês apenas com os olhos e porque o teu coração foi ferido há pouco tempo e como o caracol fechou-se na sua concha. O tempo é mestre…
- Não acredito que o tempo mude nada disto…
- Em verdade te digo que antes mesmo da Primavera eclodir hás-de aqui tornar com ele e ambos trarão uma bilha de leite com que hão-de encher cada uma destas vasilhas, pois que a cabra que tinha morreu ontem e não tenho outra que a substitua.
- Seja.
Duas semanas depois o jovem e o Paulo subiam lentamente a ladeira que conduzia à casa rústica da montanha, trazendo presa por um cordel uma cabra luzidia e de ar robusto e saudável. Encontraram à sua espera o ancião, que logo os cumprimentou e convidou a sentar perto do fogo.
- Amanhã começa a Primavera – disse o velho.
- E estava certo quando disse que haveríamos de voltar…
- Tudo na vida tem o seu ritmo, como as estações.
- Quero agradecer-lhe por me ter ensinado a ver com o coração e não com os olhos. Agora sei que não vou ficar sozinho e por isso lhe trago não duas bilhas de leite, mas sim uma cabra que poderá voltar a ordenhar como dantes, pois também o que me deu foi para a vida e não para escassas semanas.
- Agradeço a tua bondade, meu rapaz.
- Queria contar-lhe como Vi o Paulo…
- Seja.
- Desde que daqui me fui o tempo passou breve e um dia encontrei-me a almoçar na estalagem onde ele trabalha. Ao princípio fiz por ignorá-lo, mas acabei por reparar como ele beijava e abraçava ternamente uma empregada preta que acabara de receber más notícias, vi-o tratar com um sorriso todos os colegas, observei como acolhia com simpatia todos os clientes, mesmo os mais antipáticos, e assim foi que o vi como ele é. De repente já nem o achava tão alto, a sua voz era-me agradável ao ouvido e até o estranho corte de cabelo aprendi a amar.
- Então descobriste finalmente o que é o amor. Agora se não te importas ordenha a cabra e enche de novo estas duas vasilhas.
O jovem assim fez e pouco a pouco conseguiu extrair da ordenha leite suficiente para o que lhe fora proposto, embora se questionasse o que mais haveria a ver ainda, agora que compreendera o que é o amor.
- Aqui está – disse o rapaz.
- Muito bem. Na vasilha da esquerda podes ver o teu futuro. Na vasilha da direita podes ver o futuro do Paulo. Em ambas poderás antever tudo o que de bom e mau vos espera. Qual queres ver?
O rapaz pensou demoradamente, sabendo que estava a ser testado, mas sem conseguir decidir-se.
- Não sei, não consigo decidir-me. Claro que gostaria muito de ver o que o futuro me reserva, mas por outro lado também amo o Paulo e gostava de ver o seu destino…
- Tens de escolher – respondeu-lhe o ancião.
- Escolho a da direita.
- Então inclina-te e diz-me o que vês…
- Vejo o meu próprio futuro e o do Paulo! Não devia ver só o dele?
- Fizeste a escolha acertada e provaste que o amas, pois entre saber sobre o teu futuro e o dele preferiste o do Paulo. Na verdade, qualquer que fosse a tua decisão verias sempre o futuro de ambos pois vocês agora estão ligados e o vosso destino também. Porém, se tivesses escolhido a tua vasilha saberia que não o amas verdadeiramente e teria de te devolver esta bela cabra.
- E por que não pediste ao Paulo para ser ele a decidir e a ver?
- Porque sei desde o primeiro dia em que me procuraste que ele escolheria a tua vasilha e não a dele.
- E de mim, não sabias?
- Sabia.
- Como?
- Pela cabra que trouxeste. Ao fazê-lo provaste ter superado o teu ego e o teu egoísmo e demonstraste já saber ver os outros com o coração.

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