Se algum dia...
Depois da manhã
Vem a tarde
E depois da tarde
Vem a noite
E à noite
Os corpos caem,
Ficam dependurados
do dia
Suspensos,
Presos do nada,
Aguardando
Por mais uma caminhada
De dia
Às vezes é noite
E à noite
Às vezes é dia
À tarde as gabardinas
Arrastam-se, caídas
Para onde passam a noite
Quando já é findo mais um dia
Depois, de noite,
Deitam-se,
Amam-se,
Odeiam-se
E vem mais um dia
E mais uma tarde
E mais uma noite,
Outra vez outro dia
Em que o sonho
Se adia
E se vive, enfadonhom
O dia-a-dia
Se um dia eu assim for,
E viver como uma velka,
Inflado e incolor,
Que logo eu seja, então, dela!
João Faces, 02/11/1998

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