19 maio 2006

À Alma do Puto

A minha aldeia é uma estrada
Onde eu balanço ao luar
Aqui sou quase nada
Do quase tudo que posso vir a ser

Fujo de casa para fugir de mim
Mas sou sempre eu que me espero ao virar da esquina
E sempre regresso a casa comigo e nada tem fim
Porque nada chega sequer a começar

Vivo de fazer sorrir
Para não verem que choro…
Decoro palavras de sentir
Porque não ouso senti-las

Sinto tanto medo de amar
Que chego a magoar-me…
Para acreditar que é deveras dor
O que mais não é do que adiar-me

Eternamente focado nos outros
Esqueço-me do meu coração,
Quero viver da mente
Mesmo quando a vida me não dá razão...

Vejo qualidades nos outros,
Em mim só defeitos,
Os meus caminhos julgo-os tortos
E os dos outros escorreitos…

Vivo tão afastado de mim
Que se me elogiam eu desconfio
Pois de pessimista que sou
Há um Eu que ainda não se viu…

Esse que é uno com a vida,
Esse que é filho de Deus e irmão dos homens,
Esse que é belo, meigo e sensível,
Ainda que por diferente o tomem

Na verdade até de mim desconfio,
Pois mesmo quando consigo o que quero
Ou quando venço por mim,
Quero acreditar que isso é apenas mero esmero

Por que me menosprezo?
Por que não me vejo como sou?
Por que me ajoelho e rezo
Mas depois não faço o que Ele professou?

Por que não me amo?
Por que não perdoo aos que me ofenderam?
Por que raio de razão, afinal,
Não acredito em mim e nos que me querem ou quiseram?!

Por que ouso querer extinguir em mim
O amor, a luz e a vida que ensino às crianças
Se o meu caminho ainda está longe do fim
E cheio de esperança?

Lançai sobre mim, oh Cristo,
A luz da consciência e da libertação,
Pois é por Ti que existo
E não me fizeste para expiação

Abri os braços para este Teu filho,
Que daqui Te chama e invoca,
Pois é a Tua lei que perfilho
E que a minha alma evoca

Perdoai-me, oh Pai Grande do Céu,
Sempre que penso em partir ou trato de me ferir,
Religai-me a Vós e cortai o maldito véu
Que cega a minha alma

Parai a minha mente
Que descaradamente
Me mente
E me reduz à condição de mero sobrevivente

Que outro ser que não Vós e Eu mais me controlem,
Ou me levem à cobardia de fugir da Cruz,
Essa onde, Cristo, morreste (ontem)
Para que eu viva hoje

Dai-me o eterno presente
E em Tua honra construirei do nada o meu templo interno
Onde não haverá mal que me tente
Nem felicidade que me seja negada

Dai-me força, luz e vida
Hoje mesmo, já, aqui e agora,
Escutai este poema que leio na despedida
Do Ricardo que fui (vítima dos meus problemas) e na chegada deste novo Ricardo que se adora

Dai-me, oh Cristo, que estás ao lado do Pai,
A sabedoria de cumprir o meu destino,
A humildade para aprender com o que errei,
E ser de novo menino (e de novo confiar e amar)

Eu quero renascer pela vida e não pela morte,
Chamo a mim só o bom
E nunca a má sorte,
Pois moro em Ti e Tu moras em mim

Fazei com que jamais possa ferir-me
E muito menos a Vós,
Varrei de mim ideia, pensamento
Ou desejo atroz!

Eu sou parte de Ti,
Eu sou vida,
Eu sou o Ricardo,
Eu quero e sou luz.

Iluminai as trevas do meu pensamento,
Acendei uma vela de consciência
Em cada célula do meu firmamento,
Para que possa progredir cada dia mais

Eu cuido dos homens, mas cuido também de mim,
Eu amo os homens, mas amo-me também a mim,
Eu ensino o filho dos homens, mas não me nego a aprender
Eu sirvo os homens no âmago do teu propósito, mas não permito que se sirvam de mim

Eu amo este que sou eu,
Este que fizemos juntos,
Ricardo, Cristão e Teu,
Com orgulho e humildade também meu

Eu Vos agradeço pelos anjos que me tocaram e tocam,
Pelos homens que me amaram e amam,
Pelos livros que me ensinaram e ensinam,
Pelos meus pais, irmãos, avós e amigos João e Miguel

Eu Vos agradeço pelas privações que me tocaram
Pois sei que elas cuidaram de fazer-me o Ricardo que sou,
Ciente da Lei e da Ordem; do útil e do inútil,
Amo da Luz e da Vida

Eu sou Deus em potência,
Eu sou mente e alma,
Razão e emoção,
Eu sou e vivo cada dia com gratidão pela vida

Não terei medo de amar,
Pois onde há amor há abundância, não escassez,
Há vida e não morte,
Estais Vós (e Eu).

(Este poema é dedicado a ti, Ricardo C., com muito amor fraternal e luz. Nunca escrevi nada tão profundo e sei que cada linha que aqui está foi ditada por um Ser superior de quem fui mero intermediário. A minha pele está arrepiada e a minha alma agradecida por poder tocar-te com esta mensagem. Que Deus te proteja e desperte o potencial que mora em ti e te pode fazer feliz. Obrigado por existires.

PS: Perguntaste-me ontem se costumo chorar e disse-te que não. Menti. Agora mesmo estou lavado em lágrimas, mas escrevo, escrevo, escrevo para que tu possas viver e ser feliz contigo. Não me voltes a perguntar porque te amo ou amei porque se ainda precisares de resposta então eu é que errei na vida. Sim, estou a chorar, muito, como há anos não chorava e também por isso te agradeço. Choro porque sinto cada pedaço do teu karma e da tua dor mas também porque sei que um novo Ricardo está para nascer e a felicidade que isso me dá emociona-me até ao fundo mais profundo da minha alma. Por isso choro mas não tenho sofrimento, tão só emoção.

Adoro-te,

João