21 junho 2006

Muro de mim

Pedra a pedra,
Ano após ano...

Separei-me de mim,
Num muro que ergui

Para lá dele não mandou senão o ego,
(Aquém dele, só o eu prisioneiro de mim...)

Por ele e para ele, ambicionei, desejei, projectei,
Julguei mesmo poder esquecer o Eu que então condenei...

Nada dei, nada recebi;
Por isso dei-me a mim tudo o que pude, que era nada afinal

Construí-lhe uma bela morada,
Montei-o numa bela montada

Vi-o lá em cima no topo da vida,
27 anos, tudo meu... (dele...)

O preso mais recluso, o Ego mais intruso,
Consciência... abuso de religação não permitido

Na vida mandava a mente,
Que mandava na vida da gente que sente

Sentiram alguns por mim,
Eu por poucos... tão só pelos que me faziam sofrer (puro orgulho!)

Até esse dia em que o recluso viu a luz e escreveu;
Pelas frinchas das sólidas paredes enviou-me mensagens em forma de poema a que por inteiro se deu

Cada dia mais linhas e mais essência de mim escapavam ao lápis azul do mEu censor,
Até ao momento que ele já não tinha poder e o muro ruiu sem ruir porque já nada guadava senão um resquício de dor...

Foi então que me encontrei liberto de mim, mas preso do medo de ser eu mesmo;
Fragilizado pelos anos de aprisionamento no submundo da mente

A seguir a saturno, libertador,
Plutão, opressor e obssessor

Mergulhei nas profundezas do meu abismo,
E tive medo de mim mesmo e da vida

Hoje regresso de novo à prisão para resgatar o preso que ainda lá ficou,
Ainda que lá não estejam mais do que memórias...

Revejo cada pedra desse muro,
A que procuro dar um significado

Um dia ele será pó
E do pó me farei pão, parte do corpo de Deus, ciente de mim.

Então não haverá muro entre mim e Eu,
Mas sim uma ponte de união.

Por essa mesma ponte atravessarei ao teu encontro,
E aí me encontrarei em ti mas verdadeiramente comigo.