Muro de mim
Pedra a pedra,
Ano após ano...
Separei-me de mim,
Num muro que ergui
Para lá dele não mandou senão o ego,
(Aquém dele, só o eu prisioneiro de mim...)
Por ele e para ele, ambicionei, desejei, projectei,
Julguei mesmo poder esquecer o Eu que então condenei...
Nada dei, nada recebi;
Por isso dei-me a mim tudo o que pude, que era nada afinal
Construí-lhe uma bela morada,
Montei-o numa bela montada
Vi-o lá em cima no topo da vida,
27 anos, tudo meu... (dele...)
O preso mais recluso, o Ego mais intruso,
Consciência... abuso de religação não permitido
Na vida mandava a mente,
Que mandava na vida da gente que sente
Sentiram alguns por mim,
Eu por poucos... tão só pelos que me faziam sofrer (puro orgulho!)
Até esse dia em que o recluso viu a luz e escreveu;
Pelas frinchas das sólidas paredes enviou-me mensagens em forma de poema a que por inteiro se deu
Cada dia mais linhas e mais essência de mim escapavam ao lápis azul do mEu censor,
Até ao momento que ele já não tinha poder e o muro ruiu sem ruir porque já nada guadava senão um resquício de dor...
Foi então que me encontrei liberto de mim, mas preso do medo de ser eu mesmo;
Fragilizado pelos anos de aprisionamento no submundo da mente
A seguir a saturno, libertador,
Plutão, opressor e obssessor
Mergulhei nas profundezas do meu abismo,
E tive medo de mim mesmo e da vida
Hoje regresso de novo à prisão para resgatar o preso que ainda lá ficou,
Ainda que lá não estejam mais do que memórias...
Revejo cada pedra desse muro,
A que procuro dar um significado
Um dia ele será pó
E do pó me farei pão, parte do corpo de Deus, ciente de mim.
Então não haverá muro entre mim e Eu,
Mas sim uma ponte de união.
Por essa mesma ponte atravessarei ao teu encontro,
E aí me encontrarei em ti mas verdadeiramente comigo.

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